quarta-feira, 20 de maio de 2009

Mundo Cão

Sentada em seu banquinho de madeira, acompanhada de um Vira-Lata, a velha rendeira misturava com os fios todas as suas memórias, seu cotidiano e imprimia em cada ponto de arremate um desejo de futuro. Certa tarde, latido firme, correu o cão a receber o mascate que chegava. Chegava ao terreiro da velha uma proposta tentadora: seu trabalho iria à loja de artesanato da capital. Figuraria entre outros trabalhos, balaios, colares e colagens de todos os tipos.
Copiando e colando símbolos e significados, procuramos nos quatro cantos do planeta todos os significantes sedutores. Tapetes, roupas, músicas, ídolos e ideologias. Mundo complexo, sistema aberto, disposto em rede, o acesso é cada dia mais facilitado. Ficamos tão especializados nisso que buscamos somente a parte que nos interessa. Desconsiderando todas as memórias e histórias de cada aquilo que nos seduz, nos identificamos e firmamos identidade no imediato das coisas.
Pouco tempo depois, a firmeza dessa identidade é posta à prova, surge algo novo, que parece ser imprescindível. Traduzimos então à nossa maneira e à nossa conveniência aquilo que para a velha rendeira era o resultado de um trabalho bem menos imediato. Nessa tradução nos esquecemos, quase que por convenção, de todas as memórias e vivências que ela punha em suas rendas. Estabelecendo mais uma conexão entre os pontos que nos atraem, seguimos na tentativa de esgotar as possibilidades. Nos cobramos a capacidade de uma identificação global, de processamento semelhante àquele correspondente às máquinas, de juntar todas as qualidades e qualificações possíveis e imagináveis num exemplar único, espetacular.
Diferentemente do Vira-Lata, o Pitt-Bull, tão manipulado geneticamente na tentativa de se criar um híbrido de extrema capacidade em ser agressivo, preciso e competitivo, trouxe da junção sedutora de todas as qualidades presentes nas raças que compõem seu ser, um pequeno inconveniente: uma porcentagem alta de exemplares sofre de displasia, origem de uma dor crônica que acaba contribuindo com o seu temperamento e seu comportamento muitas vezes nada conveniente. O Vira-Lata em questão, cachorro não menos híbrido, mas criado no terreiro, solto e largado às possibilidades que apareciam, às vezes latia de fome, às vezes de satisfação, ora recebia afagos da velha, ora uma repreendida em vara de marmelo.
Latiu ainda mais firme ao ver o mascate sumindo na estrada. A velha rendeira ia pensar a respeito da proposta, não era decisão a ser tomada assim, no imediato de um encontro apenas. Sentia sem se dar conta, que aos humanos e caninos cabia tarefa mais nobre do que o processamento mecânico de todas imagens, idéias, símbolos e significados, propostas e possibilidades. Sabia que à eles estava reservada a condição de dar um passo além, de ousar latir ao desconhecido, encará-lo de frente, obrigando-o a entender e participar conjuntamente no processo de mudança e criação de novas conexões. Naquela noite, custou a pegar no sono imaginando o destino de suas rendas, o que fariam com a história produzida por suas mãos.

Diego Suriadakis

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