
A região hoje conhecida como Savassi, surgiu na cidade de Belo Horizonte com a criação de uma padaria de imigrantes italianos. A padaria foi inaugurada em 1939 e deu nome a um dos lugares mais conhecidos e visitados da cidade.
Local de encontros e conversas, a Savassi era um ambiente calmo que inspirava música e poesia. Hoje após 70 anos, este cenário transformou-se bastante. As ruas estão movimentadas e o comércio da região cresceu. Mas o que nos chama atenção na Savassi é a expansão da culinária: os bares ficam lotados e há restaurantes de todos os tipos. È possível encontrar desde a comida tradicional mineira até a comida mexicana, francesa, tendo como opção de sobremesa, um típico doce português. Uma diversidade de culturas todas próximas, bem misturadas e muitas vezes contraditórias.
Andando pelas ruas da Savassi, bem no centro, nos deparamos com o símbolo da globalização e da cultura americana, o Mc Donald’s. O fast-food já está a mais tempo incorporado na cultura brasileira, em decorrência do poder e do progresso norte-americano. No entanto, não é preciso andar muito para encontrarmos a antítese do Mc Donald’s. Bem próximo, temos diversos restaurantes e lanchonetes de comidas leves e naturais, o que não deixa de ser também uma nova moda global, na qual o bem-estar e o equilíbrio do corpo passa a ser o ideal de todos.
Viramos uma rua aqui, outra ali e nos deparamos com um mundo oriental: o japonês, o chinês e o árabe. O mais engraçado nisso tudo? O chefe do restaurante árabe, não é árabe, os temperos em sua maioria não são provenientes dos países árabes, e no restaurante japonês você tem a possibilidade de comer “pizza japonesa com um toque brasileiro”. Além do mais, mesmo os restaurantes tendo uma decoração das culturas que eles representam a maneira como os japoneses, árabes, chineses, italianos fazem as suas refeições, não são incorporadas pelos brasileiros. Outro fato engraçado, é que o restaurante Shop Stick, serve comida japonesa e chinesa, ou seja, duas culturas orientais repleta de diferenças sendo “servidas” em um mesmo local. Se isso não é um reflexo da globalização e do multiculturalismo, o que é?
O sociólogo Giddens conceituou globalização como “...processos atuantes numa escala global, atravessam fronteiras nacionais, conectando comunidades e organizações em novas combinações espaço-tempo-mundo interconectado.” Esta etapa da globalização, claro, não é um processo recente. Essa diversidade que estamos vendo hoje é um reflexo de um processo que vem ocorrendo há décadas. Mas o que nos leva a questionar a globalização, é o fato de ser um fenômeno contraditório. Em uma região de Belo Horizonte, encontramos uma pluralidade de culturas, países distantes convivendo em um mesmo espaço. Por outro lado, os restaurantes ditos comida típica, como a mineira, conseguem conviver muito bem.
Neste sentido o chamado multiculturalismo, que nada mais é o intercâmbio, a troca de várias culturas, costumes, valores, modos de vida, que convivem em um mesmo local, se torna cada vez mais presente e natural. No entanto, como Stuart Hall cita “É difícil pensar na “comida indiana” como algo característico das tradições étnicas do subcontinente asiático quando há um restaurante indiano no centro de cada cidade da Grã-Bretanha”, ou no nosso caso, em um bairro de Belo Horizonte. Isso significa que não podemos reduzir a cultura, uma característica que engloba vários aspectos de um povo, que conta a sua história, apenas à sua culinária. É preciso lembrar, que a culinária é uma parte da cultura asiática, européia, brasileira.
Penso no multiculturalismo como um processo irreversível. À medida que os costumes vão se condensando, torna-se complicado saber se um tempero é típico de Portugal ou da China, por exemplo. Mas essa mistura não é necessariamente ruim. Por trás das trocas de especiarias, de alimentos, existem trocas de conhecimento, de aperfeiçoamento, que transformam e constroem as culturas. Dessa forma, a afirmação de Gianni Vattimo é totalmente plausível: “...neste mundo de culturas plurais, terei também uma consciência intensa da historicidade, contingência, limitação, de todos estes sistemas, a começar pelo meu.” Contudo, o multiculturalismo também tem os seus efeitos negativos.
A globalização e consequentemente o multiculturalismo, interferem na formação das identidades culturais. As identidades estão “soltas”, flutuantes, efêmeras, pois não são identidades fincadas em suas raízes e tradições. Ao mesmo, tempo tais identidades querem mostrar a sua peculiaridade, se impor através do que tem de diferente. Essa dualidade se dá porque as identidades culturais “... retiram seus recursos, ao mesmo tempo, de diferentes tradições culturais; e que são o produto desses complicados cruzamentos e misturas culturais que são cada vez mais comuns num mundo globalizado.” (HALL, Stuart. p.88).
Apesar dos aspectos negativos do multiculturalismo, é impossível pensar em uma interação entre os costumes única, global. O homem já é um ser formado por uma diversidade de culturas, e esse fator é benéfico para a sua vivência nesse mundo em que as fronteiras se dissolveram e que o espaço-tempo foi comprimido pela globalização. Além disso, os valores globais, aos quais não temos como evitar porque somos afetados pela configuração atual do mundo, pelo avanço nos meios de comunicação, convivem com os valores locais, das histórias que constituem cada indivíduo.
As várias culturas estão interconectadas, assim como as culinárias distintas dos restaurantes da Savassi. Estas estão em constante contato com a culinária mineira, com a sua tradição. Sendo assim, sem precisar sair de Belo Horizonte, você consegue ter contato com outros “universos” com um gostinho brasileiro. Então, o que está esperando para vir servir o seu prato cultural?
Elisa Heringer e Larissa Borges
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