Li, há pouco tempo, uma matéria que tratava da aplicação do hipertexto, que remete ao modo de leitura na Internet, no estudo da criação musical. Ao refletir sobre as conexões múltiplas do hipertexto, não tive dúvida: aquela leitura seria o assunto do texto que viria a postar em nosso blog. Como seria possível aplicar a idéia de hipertexto no estudo da criação musical? Pois as perspectivas teóricas do hipertexto, aliada, entre outras, à teoria da transcriação, orientaram uma pesquisa sobre relações tradutórias na música de câmara, envolvendo compositor, poeta e intérprete. A responsável pela pesquisa atende pelo nome de Luciana Monteiro de Castro Silva Dutra, professora da Escola de Música da UFMG, que analisou a suíte de oito canções Líricas, op. 25, da carioca Helza Camêu (1903-1995), escrita sobre poemas de Manuel Bandeira (1886-1968).
Ao ser interpelada pelo repórter do Boletim Informativo da UFMG do dia 11.5.2009, Luciana Dutra lembrou que a construção do hipertexto é semelhante à do pensamento – multilinear e capaz de coletar elementos heterogêneos. E que as obras de arte “têm pontas para todos os lados”, ou seja, analisando a música cantada, percebe-se uma conciliação das referências literárias do compositor e do próprio poeta, detalhes da interpretação e até as características de cada público, entre outros tantos aspectos. “Posso pensar cada canção como uma rede, usando a lógica do hipertexto”, diz a pesquisadora, que considerou diferentes interações. A música de Helza, por exemplo, leitora do simbolista Bandeira, dialoga com a do francês Claude Débussy (1862-1918), que musicou autores simbolistas. E Manuel Bandeira, por sua vez, construiu sua obra a partir de influências de poetas como Verlaine, Rimbaud e Camões, além de escrever muito durante tratamento de uma tuberculose.
“As conexões são múltiplas, e o conceito de hipertextualidade se aplica perfeitamente porque estamos falando da interação de elementos de naturezas distintas, intrínsecos e extrínsecos à canção”, ela explica. O intérprete deve percorrer os caminhos dessa rede com precisão, já que busca uma operação tradutória múltipla e heterogênea. “Ele será o próprio autor, o personagem, o narrador, o interlocutor”, define Luciana Dutra.
Na produção de sua pesquisa, Luciana recorreu à recente abertura da música a outras áreas, como a semiótica e a ciência da computação. E mais: expandiu a teoria que orienta a tradução de poemas entre idiomas para a linguagem da música. Para ela, o processo de composição de Helza Camêu criou, com os oito poemas – retirados dos livros Cinza das horas, Lira dos cinquent’anos e Carnaval – uma narrativa nova, que idealizaria uma história confessional de Manuel Bandeira. “Acho que a própria compositora se vê naquelas canções. Ela teria feito, então, uma outra tradução, já que a primeira é a do próprio poeta, que não faz uma autobiografia, mas interpreta sua própria vida”, afirma Luciana, que faz uma analogia com o cinema e seus diversos planos de tradução – envolvendo roteirista, diretor, atores.
Da mesma forma como acontece com quem navega na Internet, a leitura hipertextual exigida pela própria natureza interdisciplinar do estudo, direcionada à análise da rede de elementos envolvidos na tradução da literatura para a música, levou a pesquisadora “a trilhas imprevisíveis, que muitas vezes tentaram, sem êxito, me distanciar das metas”. Mas, como ela mesma conclui, “reaproximei-me dos ‘nós’ e das ‘interfaces’ principais, tendo a tradução se revelado como um dos mais abrangentes e eficazes meios de conexão entre elementos textuais, intertextuais, hipertextuais e contextuais da canção de câmara”. Como diria o sociólogo Marcos Palacios em “Hipertexto, fechamento e o uso do conceito de não-linearidade discursiva”, a apropriação das idéias trabalhadas por Gunnar Liestøl levam a uma melhor caracterização do hipertexto enquanto estrutura discursiva multilinear, um termo que consideramos muito mais preciso e mais apropriado do que não-linear, por traduzir mais adequadamente a multiplicidade de possibilidades de construção e leitura abertos pelo Hipertexto. Prova disso está na matéria que acabo de reproduzir.
Com o hipertexto, a possibilidade de se construir vários percursos de leitura muda não só a experiência de ler quanto a natureza do que se lê, com a multiplicidade de possibilidades de produção de sentidos. Assim, pensando no hipertexto eletrônico, constata-se um fortalecimento da intertextualidade, isto é, a abertura do texto ao exterior, cujas fronteiras, como se viu, são temporárias e móveis.
Lucas Rodrigues
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